Ciclo II · agosto de 2025 a julho de 2026

Relatório de Impacto

Certificação Participativa de Cuidado das Águas
TerritórioEcovila Piracanga, Maraú — BahiaPeríodoAgosto de 2025 a julho de 2026Publicação2026
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1Introdução

A Certificação Participativa de Cuidado das Águas (CPCA) é uma tecnologia social criada na Ecovila Piracanga, em Maraú (BA), em junho de 2024. Inspirada nas certificações participativas de produção orgânica, ela não é um selo: é um convite ao cuidado, construída com moradores, proprietários e integrantes de empreendimentos locais para que cada casa, cada estabelecimento e cada pessoa seja guardiã das Águas que integram e sustentam o território.

Este relatório apresenta os resultados do Ciclo II da Certificação, referente ao período de agosto de 2025 a julho de 2026, o segundo ano completo de operação do Instituto. Sempre que relevante, os resultados são comparados aos do Ciclo I (agosto de 2024 a julho de 2025), para tornar visível a evolução do processo.

Em fevereiro de 2026, a Certificação Participativa de Cuidado das Águas foi reconhecida como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil — um marco institucional para o projeto e para o Instituto.

2O Ciclo II em números

86
casas e estabelecimentos no território
83 no Ciclo I
52
adesões voluntárias (60,5%)
47 no Ciclo I (56,6%)
56
amostras de poço analisadas
42 no Ciclo I
0
amostras com coliformes fecais (E. coli)
6 no Ciclo I (14,3%)

A tabela abaixo compara os principais indicadores de cobertura e de campo dos dois ciclos da Certificação.

IndicadorCiclo I (2024-2025)Ciclo II (2025-2026)
Casas e estabelecimentos no território8386
Adesões voluntárias à Certificação47 (56,6%)52 (60,5%)
Amostras de poço analisadas em laboratório4256
Amostras com coliformes fecais6 (14,3%)0 (0%)
Faixa de contaminação encontrada (UFC/100ml)4 a 1.200não detectado
Sistemas de saneamento revisados4650
Visitas de transparência realizadas47 (100%)49 (94%)
Fonte: Instituto Somos Água, Relatório de Impacto 2024/25; "Certificação Participativa de Cuidado das Águas — Análise dos ciclos 2024-2025 e 2025-2026" (jul/2026).

Permanecem 34 edificações fora da Certificação — a principal margem de expansão do processo para o próximo ciclo.

3–4

Núcleo de Saneamento: análises laboratoriais e revisão do saneamento

56 amostras analisadas, nenhuma com E. coli; 50 sistemas de saneamento revisados em duas rodadas.

3Núcleo Análise de Água

Coleta coletiva em 25 de setembro de 2025

A coleta de amostras no Ciclo II, articulada pelo Núcleo de Análises de Água, reuniu 56 amostras de Água, incluindo Águas de consumo humano, amostras de poços de casas que não aderiram ao projeto da certificação, além de amostras de efluentes (biodigestores) e análises de solo de banheiros secos. Todo o procedimento, desde a coleta in loco até os resultados finais, foi realizado em parceria com um laboratório especializado. Das 56 amostras estudadas, 17 apresentaram coliformes totais (bactérias não necessariamente patogênicas) e nenhuma apresentou E. coli, a bactéria usada como referência para indicar contaminação fecal.

56
amostras analisadas em laboratório
17
com coliformes totais (não necessariamente patogênicos)
0
com E. coli — nenhuma contaminação fecal detectada

Esse é um dos resultados de destaque do Ciclo II: nenhuma contaminação fecal (E. coli) identificada nas Águas de consumo humano analisadas em Piracanga, resultado celebrado pela equipe da Certificação.

Observação técnica: pelos padrões da Portaria GM/MS nº 888/2021, as amostras seguem sendo tecnicamente "reprovadas" pela ausência de cloro residual livre e alguns outros parâmetros fora dos valores de referência — mas não pela presença de contaminantes microbiológicos. A inconformidade é de natureza normativa e não reflete a condição sanitária das Águas, avaliada sob os 29 parâmetros da mesma portaria.

4Núcleo Saneamento

Entre outubro de 2025 e julho de 2026, o Núcleo de Saneamento realizou duas rodadas de revisão técnica de 50 sistemas de saneamento básico em Piracanga, com o objetivo de proteger a saúde das Águas subterrâneas. A partir de abril de 2026, a condução técnica das visitas passou a ser compartilhada com o Núcleo Capivara — Solução em Sustentabilidade, e a base legal de referência foi atualizada para a Resolução ANA nº 230/2024. Um dos principais avanços do ciclo foi a ampliação das revisões para além das Águas fecais, começando a incluir os sistemas de tratamento de Águas cinzas.

Os destaques deste ciclo incluem: (i) evolução positiva mensurável em diversas casas, incluindo substituições completas de fossas antigas por biodigestores; (ii) confirmação da fragilidade das ecofossas de fibra de vidro e de tijolo baiano e (iii) um menor grupo de casos prioritários que requerem suporte técnico e acompanhamento próximo.

A avaliação do estado dos sistemas de saneamento é um dos principais critérios da Certificação Participativa Somos Água. O trabalho é conduzido com uma abordagem educativa e não punitiva — cada visita técnica busca entender o contexto de cada sistema, reconhecer os avanços já feitos pelos proprietários e oferecer orientação prática para os ajustes necessários.

O contexto local — solo de altíssima permeabilidade e Águas subterrâneas superficiais — exige parâmetros de saúde além da legislação vigente, com o objetivo de evitar problemas sanitários já observados em vilas vizinhas da Península de Maraú. Nosso principal foco é a prevenção.

Panorama do Ciclo de Revisões

Resultados consolidados dos sistemas revisados:

Atende ao critério (100% limpo e seguro)
47%
Precisa de atenção (pendência identificada)
44%
Não atende (risco à saúde pública/ambiental)
3%
Em avaliação / dado pendente de confirmação
6%

Distribuição por tipo de sistema

O total de 34 casas/propriedades revisadas corresponde a 50 unidades de sistema, já que algumas propriedades combinam mais de um sistema — por exemplo, um biodigestor ativo e uma fossa* antiga ainda em processo de desativação, ou múltiplos biodigestores em uma mesma propriedade.

Tipo de sistemaNº de unidades% do total
Biodigestor3468%
Fossa / Ecofossa*1326%
· das quais, ainda ativas36%
· das quais, desativadas / em transição1020%
Banheiro seco36%
Total de unidades de sistema identificadas50100%
*O termo Fossa/Ecofossa agrupa os modelos de fibra de vidro, tijolo baiano e concreto.

Das 13 fossas/ecofossas identificadas, 10 (77%) já estão desativadas ou em transição para biodigestor/banheiro seco — reflexo direto do trabalho de substituição promovido pela certificação. As 3 restantes seguem ativas.

Diagnóstico Estrutural

Um padrão relevante para a política técnica do Instituto foi identificado durante o ciclo: ecofossas construídas com fibra de vidro e filtros de tijolo baiano — e também ecofossas com blocos de concreto — apresentam fragilidade estrutural quando expostos à umidade constante do subsolo. Em ambos os materiais, o risco identificado é o mesmo: rachaduras que abrem caminho para infiltração de efluentes não tratados no lençol freático — um risco direto à saúde da Água e um risco em potencial para a saúde humana.

A Certificação Participativa de Cuidado das Águas segue trabalhando para que ocorra a substituição das ecofossas em Piracanga por biodigestores com filtros de PVC, ou banheiros secos, como prioridade estrutural por um cuidado coletivo.

Próximos Passos

  • Priorizar suporte técnico e prazos definidos junto às casas com risco ambiental direto.
  • Consolidar formalmente a diretriz de substituição de ecofossas de fibra de vidro/tijolo baiano e de blocos de concreto, com cronograma de transição apoiado pelo Instituto.
  • Manter a cadência semestral de revisões, com a próxima prevista para outubro de 2026.
5

Visitas de Transparência

49 casas visitadas, 57 visitas realizadas e os primeiros agentes locais formados para conduzi-las.

5Visitas de Transparência — atendimento aos 8 critérios

As Visitas de Transparência são o momento em que integrantes da Certificação dialogam com os responsáveis por cada casa participante sobre o cumprimento dos oito critérios do Pacto de Corresponsabilidade Socioambiental.

Das 52 casas participantes do Ciclo II, 49 receberam a Visita de Transparência; as 3 restantes não a receberam porque não responderam ao agendamento da visita, embora tenham tido suas Águas analisadas e seus sistemas de saneamento revisados. No total, foram realizadas 57 visitas no ciclo, mais do que o número de casas atendidas (49), já que algumas casas foram visitadas em dois momentos diferentes para contemplar todos os moradores.

No Ciclo II, essas visitas passaram a contar também com agentes locais formados para realizá-las — um passo em direção a um modelo em que as visitas ocorram inteiramente entre pares, sem participação direta da equipe gestora. Uma outra novidade deste ciclo foi a entrega do selo de participação: um adesivo fixado no filtro de barro do participante durante as visitas. Além de marcar a data de troca das velas do filtro, o selo reforça o cuidado com a Água consumida na casa.

"O nosso objetivo é ampliar continuamente a formação de agentes Somos Água para alcançar, no futuro, um processo de Certificação Participativa em que a visita é feita entre pares, pelos próprios moradores e proprietários das casas, consolidando os nossos valores de autorresponsabilidade e interdependência."Instituto Somos Água

O gráfico a seguir resume, para cada um dos 8 critérios, quantas das 52 casas atendem plenamente ("Atende"), atendem parcialmente e precisam de atenção ("Atenção"), ou não responderam à visita.

Atendimento aos 8 critérios
Atendimento aos 8 critérios da Certificação Somos Água — Ciclo II (52 casas participantes). Fonte: planilha "Visita de Transparência (respostas)", processada pelo Instituto.
Nenhuma casa foi classificada como "Não atende" em nenhum dos 8 critérios no formulário de visita do Ciclo II — as respostas registradas foram "Atende", "Atenção" ou ausência de resposta.
6–8

Educação, Pesquisa e Parcerias

Só se ama e cuida do que se conhece: o Ciclo II ampliou o alcance do Instituto para além de Piracanga.

6Núcleo Educação

O Núcleo Educação segue com o propósito de sensibilizar a comunidade para o cuidado com as Águas, trazer informações do universo da Água e planejar ações educativas, partindo do princípio de que só se ama e cuida do que se conhece. No Ciclo II, o núcleo ampliou significativamente seu alcance, para além de Piracanga:

  • Podcast Somos Água: quase 40 episódios gravados e publicados ao longo dos dois ciclos, no Spotify e no canal de YouTube do Instituto Somos Água.
  • Apoio à exposição "Água que Transborda", de Igor Olszowski.
  • Apoio à publicação do livro "A Inteligência das Águas", de Viktor Schauberger, com tradução de Felipe Figueira.
  • Palestra sobre Água em escola pública de El Soberbio, Argentina, primeira ação educativa internacional do núcleo.
  • Participação no curso de Saneamento Ecológico para Comunidades Isoladas, promovido pelo IPESA e pela Fluxus Design Ecológico.
  • Organização, em conjunto com a Florescentia, de uma masterclass com Satish Kumar.
  • Lançamento do site institucional do Instituto Somos Água.

7Núcleo de Pesquisas, Projetos e Parcerias

Este núcleo consolidou, no Ciclo II, um conjunto de parcerias institucionais e acadêmicas que ampliam o embasamento técnico-científico da Certificação e projetam a experiência de Piracanga para outros públicos e territórios:

  • Parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, no programa Observando os Rios, e participação no encontro nacional de voluntários do programa.
  • Participação na Oficina Nacional de Saúde Única e Ecossistemas Aquáticos (ECOHA – ABRASUNI).
  • Parceria com o Instituto BIOMAS Brasil, firmada no Ciclo II, com destaque para a organização conjunta do encontro Territórios do Cuidar (ver seção 9).
  • Integração do Instituto Somos Água ao corpo docente do curso Gestión Comunitaria del Agua na América Latina e Caribe, vinculado ao Programa de Cooperação Latino-Americana "Terras e Águas" — neste primeiro ano em formato reduzido, enquanto o Programa busca financiamento para viabilizar uma edição mais ampla do curso no próximo ciclo.
  • Escrita e submissão de artigo científico — "A Experiência da Certificação Participativa de Cuidado das Águas na Ecovila Piracanga (Bahia): uma ação pactuada em Uma Só Saúde", submetido em 12 de agosto de 2026 à revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (ID do manuscrito RESS-2026-1398), de autoria da médica Vanessa de Oliveira, integrante do núcleo Análises de Água. O artigo não foi aprovado pela revista para esta edição, mas está sendo revisado pela equipe para novas submissões.
  • Participação na aplicação de projetos junto ao Mecenas da Vida e à Escola de Ativismo Rural.

O Instituto também busca aprofundar parcerias com projetos voltados à restauração de ecossistemas em abordagem sistêmica de cuidado das Águas, dado que a restauração de ecossistemas contribui diretamente para o ciclo hidrológico. A parceria com o Instituto BIOMAS já está firmada desde o Ciclo II; uma parceria semelhante com a Fiocruz está em construção, a partir da relação estabelecida no processo do artigo científico.

8Parcerias institucionais

Além das parcerias de pesquisa listadas acima, o Ciclo II avançou ou manteve as seguintes relações institucionais:

  • IFES (Instituto Federal do Espírito Santo): parceria acadêmica ativa, com pesquisa aplicada em gestão de recursos hídricos e saneamento, iniciada no Ciclo I.
  • Sitawi: apoio à gestão financeira do Instituto Somos Água a partir do Ciclo II, com foco em maior transparência e eficiência no uso dos recursos do Projeto Certificação Participativa de Cuidado das Águas.
  • Unah Piracanga: parceira desde o Ciclo I (apoio de R$ 3.000,00); a renovação do apoio financeiro e o aprofundamento da parceria técnica (testagem de água, revisão de saneamento) seguem em negociação para o próximo ciclo.
  • Instituto Arapyaú: apoio financeiro pontual (R$ 10.000,00) para a realização do encontro Territórios do Cuidar, em julho de 2026.
9

Territórios do Cuidar

30 de julho de 2026 — o dia em que a rede se encontrou e o Ciclo II foi celebrado em Piracanga.

9Territórios do Cuidar

Em 30 de julho de 2026, o Instituto Somos Água encerrou o Ciclo II com o encontro Territórios do Cuidar, realizado em Piracanga com apoio do Instituto Arapyaú e do Instituto Biomas Brasil. O evento reuniu agentes de diferentes territórios do sul da Bahia para ver, na prática, como uma comunidade cuida de suas Águas, seus resíduos, suas relações e sua floresta, além de proporcionar troca de saberes e criar conexões entre diversos atores da Bioregião.

110
participantes registrados no dia
30+
organizações e coletivos representados
9
territórios de origem dos participantes
80
almoços comunitários servidos
Indicador do eventoResultado
Participantes registrados no dia110
Organizações e coletivos representadosmais de 30
Territórios de origem dos participantes9
Almoços comunitários servidos80
Rodas temáticas de diálogo7 — Resíduos; Águas; Expansão Urbana; Estradas e Transportes; Relações; Economia e Turismo; Agroecologia/Agricultura/Solo
Fonte: "Territórios do Cuidar — o dia em que a rede se encontrou", relatório ao apoiador Instituto Arapyaú, jul/2026.

A programação incluiu uma trilha guiada pela ecovila Piracanga, passando por alguns pontos de destaque onde processos de cuidado estão em curso, como o Templo das Águas, a Escola Almar, a Escola da Natureza e a observação do contraste entre a biodiversidade local e o coqueiral vizinho. Os processos foram narrados por quem os pratica no dia a dia; aconteceram também rodas temáticas de troca de saberes entre os territórios participantes. O encontro marcou a celebração e ritualização de encerramento do Ciclo II, reunindo presencialmente todos os integrantes da gestão da Certificação e alguns de seus apoiadores e colaboradores.

Veja aqui como foi o encontro: www.territoriosdocuidar.com.br

10Financeiro do Ciclo II

O Ciclo II movimentou R$ 43.961,17 em receitas e R$ 42.222,20 em despesas, com saldo de R$ 1.738,97. A principal fonte de recursos foi a adesão à Certificação Participativa — anuidades, mensalidades e amostras extras de água pagas pelas casas participantes —, que respondeu por 69% das receitas. Os apoios institucionais do Instituto Arapyaú, da Biomas Natural Intelligence e de outros apoiadores completaram os 31% restantes, direcionados sobretudo ao encontro Territórios do Cuidar.

Receitas do Ciclo II

Do lado das despesas, a maior parte dos recursos foi para a Análise das Águas — laboratório, equipe de coleta e gestão do núcleo —, seguida pelo Territórios do Cuidar, pela equipe de gestão e pelas frentes de Saneamento, Visita de Transparência e Educação. As horas da equipe remuneradas pela Certificação (R$ 21.959,20) estão distribuídas entre essas frentes.

Despesas do Ciclo II
Resultado do Ciclo II

Esses números mostram o nosso principal desafio: remunerar o trabalho da equipe. As horas pagas pela Certificação neste ciclo cobriram apenas parte da dedicação real — a equipe registrou 127 horas fora do escopo remunerado, e ainda resta muito trabalho de articulação, comunicação e cuidado com o território que sequer entrou na conta. O nosso sonho é que a Certificação Participativa de Cuidado das Águas se torne abundante o suficiente para sustentar integralmente quem a faz acontecer.

11Desafios e oportunidades

  • Ampliar a adesão: as 34 edificações que permanecem fora da Certificação constituem a maior margem de expansão do processo. Um caminho é investigar se o valor da taxa anual funciona como barreira e buscar financiamento externo para viabilizar cobertura universal.
  • Estruturar a manutenção preventiva do saneamento: o levantamento do Núcleo Capivara mostrou que é necessário reforçar os cuidados dos sistemas de tratamento de efluentes — uma lacuna sistêmica a endereçar com aprimoramento técnico e acompanhamento sistematizado.
  • Ampliar a formação de agentes locais até que essas visitas ocorram sem a presença direta da equipe gestora, de maneira que possam acontecer entre pares e organizadas por bairros, tornando o processo cada vez mais participativo.
  • Enfrentar o baixo engajamento do público local em atividades educativas, desafio já identificado pelo Instituto — uma possibilidade é ancorar os formatos educativos em eventos recorrentes já estabelecidos na comunidade.
  • Proteger a continuidade da série histórica de monitoramento das Águas, reduzindo a dependência da coleta anual em relação à disponibilidade de um grupo específico de pessoas, risco que já se concretizou em 2023, quando a desarticulação do GT das Águas interrompeu a coleta abrangente daquele ano.
  • Redefinir critérios físico-químicos e microbiológicos seguros de potabilidade da Água adequados à realidade de Piracanga, unindo os dados de pesquisa aplicada e acadêmica já reunidos pelo Instituto. Aprofundar as análises de qualidade de Água incluindo novos parâmetros ainda não monitorados, como parasitas, metais pesados e agrotóxicos, quem sabe até mesmo microplásticos e contaminantes emergentes.

12Aprendizados

  • A existência de um processo estruturado — critérios explícitos, monitoramento periódico e devolutiva de resultados aos participantes — parece ser determinante para a mudança observada nos indicadores sanitários, já que a intenção de cuidado e os valores associados a ela já estavam presentes no território muito antes da Certificação existir.
  • Ao menos um ciclo é necessário para que uma casa se adeque aos critérios da Certificação, e em alguns casos são necessários vários ciclos — o desenho do processo já incorpora essa expectativa de progresso gradual.
  • A certificação é um processo de conscientização e mudança de cultura, não de fiscalização e punição — formulação que a própria equipe reafirma como princípio orientador do trabalho junto aos participantes.
  • A formação de agentes locais para as visitas de transparência demanda maturidade social e alinhamento técnico entre os participantes, um horizonte que se constrói progressivamente, e não de forma imediata. O Ciclo II deu o primeiro passo nessa direção, com a formação de Suzana Vilalba e Su Duarte como agentes Somos Água.
  • Uma revisão da literatura científica assistida por IA, feita em parceria com o Instituto BIOMAS sobre os textos e relatórios do Instituto, trouxe um aprendizado metodológico importante: afirmações sobre a qualidade da Água devem ser formuladas com precisão como referentes "às amostras analisadas", e não como conclusões amplas do tipo "o aquífero não está mais contaminado". A literatura indica que a queda de bactérias indicadoras (como a E. coli) não comprova, por si só, a eliminação da contaminação, e que marcadores mais conservadores — nitrogênio, sódio, alcalinidade — podem persistir por mais tempo. Esse cuidado de linguagem passa a orientar os relatórios e as comunicações do Instituto.

13Próximos passos

Os itens abaixo reúnem os objetivos declarados pelo Instituto para o próximo ciclo:

  • Lançar a Plataforma Somos Água, portal onde os moradores acessarão as informações de qualidade das Águas da sua casa.
  • Criar o Conselho Consultivo do Instituto, com participação de instituições parceiras alinhadas aos valores da Certificação.
  • Renovar a parceria com os proprietários que aderiram ao Ciclo II e ampliar o número de casas participantes em Piracanga.
  • Ampliar os parâmetros analisados nas Águas e aprofundar o conhecimento do que representa cada parâmetro.
  • Fortalecer o apoio técnico especializado às Visitas de Saneamento, com validação por especialistas externos.
  • Avançar no mapeamento do lençol freático, para compreender as características geológicas e hidrológicas do território.
  • Criar espaço de diálogo com a Agência Nacional de Águas (ANA).
  • Expandir a metodologia da Certificação para a bacia hidrográfica e para comunidades vizinhas, já que o aquífero não se limita ao perímetro da ecovila.

14Encerramento e agradecimentos

O Ciclo II confirma que a estruturação de um processo de cuidado com as Águas de Piracanga produziu efeitos verificáveis sobre os indicadores sanitários e ambientais do território. O reconhecimento como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil, as parcerias com diversas instituições e pessoas de referência em cuidado socioambiental e a realização do evento Territórios do Cuidar marcam a maturidade alcançada pelo processo em apenas dois anos.

Os resultados alcançados decorrem diretamente do engajamento comunitário. O Instituto Somos Água agradece a cada casa e cada pessoa que aderiu à Certificação, às equipes dos núcleos de Análise das Águas, Visita de Transparência, Saneamento, Educação, Pesquisas/Projetos/Parcerias e Financeiro, aos parceiros técnicos e institucionais e a todos que participaram do Territórios do Cuidar em 30 de julho de 2026.

Nós somos Água… e a Água somos nós.

A Certificação Participativa de Cuidado das Águas é reconhecida como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil desde fevereiro de 2026.

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